Impacto Femoro-acetabular

O QUE É?

Impacto femoro-acetabular (I.F.A.) como o próprio nome descreve, é o contato anormal entre o fêmur e seu encaixe na bacia, chamado de acetábulo. É uma causa frequente de dor, redução da amplitude dos movimentos e atualidade considerado um fator de risco para artrose de quadril.

O QUE CAUSA?

O I.F.A. basicamente é provocado por alterações no formato da articulação do quadril, sejam estas localizadas no acetábulo ou no fêmur que, durante o movimento articular normal para atividades cotidianas ou esportivas, desencadeiam o contato anormal entre os dois ossos.

Existem algumas teorias quanto à origem das deformidades que provocam o I.F.A. e as mais difundidas atualmente são:

  • Doenças da infância ou adolescência que podem deformar, mesmo que sutilmente, estes ossos;

  • Alterações congênitas do formato e ângulos de inclinação do fêmur e/ou acetábulo;

  • Sequelas de fraturas femorais ou acetabulares;

  • Sobrecarga articular durante o período de desenvolvimento e crescimento do quadril decorrente de atividade física intensa na infância ou adolescência;

  • Atividade física que exija movimentos suprafisiológicos da articulação do quadril.

QUAIS OS TIPOS DE I.F.A.:

            Existem três tipos básicos de I.F.A.: tipo CAME, tipo “pincer” e o misto, combinação de ambos. 

            O came é uma deformidade no fêmur proximal, entre a região da cabeça e do colo femoral, mais fácil de compreender comparando as figuras abaixo:

 

 

 

O “pincer” ou torques é uma deformidade no acetábulo que aumenta a cobertura sobre a cabeça femoral, mais fácil de compreender comparando as figuras abaixo:

QUEM PODE SER ACOMETIDO?

Não é uma regra mas há predileção para impacto tipo came em pacientes do sexo masculino, adultos jovens, praticantes de atividade físicas que exigem movimentos amplos do quadril, tais como: futebol, tênis e artes marciais.

Já o impacto tipo “pincer” é mais incidente em pacientes do sexo feminino.

QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DO I.F.A.?

Além de ser causa de dor e limitação funcional, sobretudo para a realização de atividade física, a colisão  repetitiva entre o fêmur e o acetábulo que ocorre no I.F.A. pode provocar lesão numa estrutura chamada de labrum. O labrum é uma estrutura cartilaginosa existente na borda acetabular que possui função de lacrar a articulação, impedindo o escape do líquido que a lubrifica, bem com de distribuir uniformemente a carga sobre a articulação. (Figuras abaixo). 

Além da cartilagem labral, o I.F.A. repetitivo também pode danificar a cartilagem articular levando a longo prazo à degeneração articular, ou seja,  à artrose de quadril.

Porém, não há consenso entre a exata relação de causa-efeito entre I.F.A. e artrose de quadril por algumas razoes:

  • Uma parcela da população idosa apresenta imagens em exames de radiografia e ressonância magnética sugestivas de I.F.A. em quadris assintomáticos e sem artrose.

  • Inexistência, na atualidade, de estudos científicos de longo prazo comparando a incidência e o desenvolvimento de artrose em quadris morfologicamente normais com quadris com alterações relacionadas ao I.F.A. 

  • Falta de estudos de longo prazo comprovando a prevenção da artrose em quadris com I.FA. tratados cirurgicamente.

QUAIS OS SINTOMAS DO I.F.A?

                  A DOR é o principal sintoma e motivo de consulta. As características TÍPICAS da dor provocada pelo I.F.A. são:

  • Localização na face anterior do quadril ou lateral do quadril

  • Provocada por movimentos rotacionais do quadril tais como:

  • Entrar e sair do carro;

  • Subir ou descer de motocicleta ou bicicleta;

  • Prática de atividades físicas como futebol, tênis, artes marciais, modalidade de natação tipo peito ou borboleta;

  • Alívio em repouso.

Com frequência menor, a dor pode ser localizada na região posterior do quadril , região lombar, face interna da coxa, púbis e irradiar-se  ou ser sentida SOMENTE NO JOELHO, confundindo, muitas vezes, o paciente sobre a origem da mesma.

Além da dor, frequentemente os pacientes queixam-se de limitação na quantidade dos movimentos seja para atividades desportivas ou mesmo atividades cotidianas que exijam rotação do quadril ou abertura das pernas.

COMO O I.F.A. É DIAGNOSTICADO?

Como qualquer doença, o diagnostico do I.F.A. parte de uma suspeita clínica baseada nas características dos sintomas, testes específicos de exame físico e confirmação com exames de imagem. A sequência de exames radiológicos são: radiografias, ressonância nuclear magnética e tomografia computadorizada, quando necessária. É muito importante o conceito de correlação clínica entre os achados em exames de imagem e os sintomas sentidos pelo paciente, não devendo-se chegar a conclusões diagnósticas baseadas somente em resultados de exames. Esta correlação é obrigatória em medicina e deve ser aplicada na escolha do tratamento do I.F.A. para que se evite  “tratar o exames e não o paciente”.

 COMO O I.F.A. PODE SER TRATADO?

Casos assintomáticos ou pouco sintomáticos podem ser acompanhados e tratados de maneira conservadora, ou seja, sem cirurgia. Exercícios de fortalecimento muscular podem trazer resultados positivos mas devem ser evitados exercícios de alongamentos que objetivem o ganho de movimento do quadril, tendo em vista que esta redução do movimento é consequência do impacto anormal entre os ossos e atividades com este fim podem piorar os sintomas.

É muito importante que o paciente tome ciência sobre a doença e os mecanismos que a provocam. Por isto, alguns tipos de exercícios são contraindicados, tais como: futebol, tênis, artes marciais, modalidade de natação tipo peito ou borboleta. Em geral, atividades tipo caminhada, corridas leves, musculação com alguma restrição nos movimentos da articulação do quadril podem ser realizadas.

Havendo falha no tratamento conservador com permanência dos sintomas pode ser indicado o tratamento cirúrgico.

QUAIS OS OBJETIVOS DO TRATAMENTO CIRÚRGICO DO I.F.A.?

O Tratamento definitivo do I.F.A.  objetiva minimizar ou resolver sintomas atuais e eliminar um possível fator de risco para artrose futura do quadril. Isto só pode ser alcançado  corrigindo-se cirurgicamente a deformidade causadora do I.F.A, ou seja, o CAME e/ou o “PINCER”

Existem diversas técnicas cirúrgicas desenvolvidas para o tratamento do I.F.A. e de uma maneira geral, podemos dividi-las em dois grupos: CIRURGIA ABERTA e CIRURGIA VIDEOARTROSCÓPICA. Ainda se considera a cirurgia aberta como “padrão ouro” no tratamento do I.F.A. porém isto deve mudar nos próximos anos, tendo em vista resultados semelhantes das duas técnicas em estudos de longo prazo, menor agressão cirúrgica e período de reabilitação mais breve na cirurgia artroscópica. Ambas as técnicas cirúrgicas são procedimentos de MEIO, ou seja, a equipe médica utiliza recursos e toma medidas com a intenção de alcançar um resultado final. 

O QUE PODE DAR ERRADO NA CIRURGIA?

Como qualquer tratamento em medicina, o paciente que submete-se a um tratamento cirúrgico é exposto a riscos de intercorrências e complicações próprias de cada tipo de cirurgia. 

As intercorrências e complicações descritas para a cirurgia aberta são:

  • Infecção

  • Sangramentos

  • Cicatriz hipertrófica

  • Lesões neurológicas e ou vasculares por traumatismos oriundos no afastamento cirúrgico ou traumatismos direitos a nervos ou vasos

  • Necrose da cabeça do fêmur

  • Trombose venosa profunda e embolia pulmonar

As intercorrências e complicações descritas para a cirurgia videoartroscópicas são as mesmas acima descritas acrescidas de:

  • Lesão neurológica ou da pele da região pudenda e/ou perineal decorrentes da tração aplicada sobre o membro operado para permitir o acesso artroscópico da articulação do quadril;

  • Infiltração do membro inferior e/ou pelve pelo líquido (soro fisiológico) utilizado durante a cirurgia artroscópica;

  • Queimadura de pele e outras estruturas provocada por um instrumento e recurso artroscópico chamado de radiofrequência.

Felizmente, como os avanços tecnológicos  e melhorias nas técnicas cirúrgicas, as complicações tanto da cirurgia aberta quanto da artroscópica tem se tornado cada vez mas raras aumentando a segurança dos pacientes a serem submetidos ao tratamento cirúrgico.

Diante do acima exposto, é fundamental a indicação precisa e criteriosa do tratamento cirúrgico para que o paciente só seja exposto aos riscos previstos de uma cirurgia se seus benefícios forem claros e ao alcance do resultado cirúrgico.